O médico Luciano Lopes Pastor, de 52 anos, que morreu após uma troca de tiros com policiais militares no domingo (18), em Catanduva (SP), foi dirigente do Hospital Mahatma Gandhi, organização social que administrou o Pronto-Socorro Municipal de Viradouro.
O nome de Luciano aparece em documentos oficiais relacionados ao Contrato de Gestão nº 086/2022, firmado entre a Prefeitura de Viradouro e a entidade para o gerenciamento dos serviços de saúde do município.

Em agosto de 2025, o médico também havia sido preso durante a Operação Duas Caras, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público de São Paulo (MPSP). A investigação apurava suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a organização social e teve mandados expedidos para cumprimento em diferentes estados, incluindo o município de Viradouro.
Médico morreu após denúncia de violência doméstica
Segundo as informações registradas pela polícia, a ocorrência começou depois que a esposa de Luciano acionou a Polícia Militar e relatou ter sido ameaçada de morte pelo marido, no bairro Jardim Aeroporto, em Catanduva.
A mulher informou que ele estava armado e apresentava comportamento agressivo. Conforme o relato policial, o médico teria ingerido bebida alcoólica durante um churrasco.
Quando as equipes chegaram à residência, a mulher já estava na área externa. Dois filhos do casal, de 14 e 10 anos, permaneciam dentro do imóvel e se abrigaram em um banheiro.

Os policiais iniciaram uma tentativa de negociação. Segundo a versão policial, Luciano apontou uma arma na direção dos agentes e efetuou disparos. Os militares reagiram e atingiram o médico, que morreu no local.
As crianças foram retiradas da casa sem ferimentos. A esposa também não sofreu lesões físicas e recebeu atendimento médico após a ocorrência.
As circunstâncias da morte são objeto de apuração pelas autoridades policiais.
Polícia encontrou armas, munições e medalha com suástica
Durante as buscas na residência, a polícia encontrou oito armas de fogo, sendo duas espingardas, quatro pistolas e dois revólveres.
Também foram localizadas seis armas brancas, entre espadas, espetos e um facão, além de 352 munições intactas e 98 deflagradas, conforme as informações do boletim de ocorrência divulgadas pela imprensa.
Entre os objetos recolhidos estavam uma medalha com o símbolo da suástica nazista, um radiocomunicador e equipamentos de monitoramento da residência.
A localização de um objeto semelhante a uma granada levou ao acionamento do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE). Após análise, os policiais concluíram que se tratava de uma réplica decorativa, sem material explosivo.
Como não havia documentação disponível para verificar a regularidade de todo o armamento, as armas e munições foram apreendidas. A arma que estava com o médico e as utilizadas pelos policiais envolvidos no confronto também foram encaminhadas para perícia.
Médico havia sido preso na Operação Duas Caras
Luciano Lopes Pastor já havia sido preso em 7 de agosto de 2025, durante a Operação Duas Caras, conduzida pelo GAECO para investigar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas à administração do Hospital Mahatma Gandhi.

Segundo comunicado divulgado pelo MPSP na época, os valores transacionados sob suspeita ultrapassavam R$ 1,6 bilhão. A investigação tinha abrangência interestadual e envolvia contratos de gestão de serviços públicos de saúde.
Foram expedidos mais de 100 mandados, incluindo 12 de prisão temporária, além de medidas de busca e apreensão, afastamento de dirigentes e indisponibilidade de bens.
Viradouro estava entre os municípios onde os mandados deveriam ser cumpridos, juntamente com Catanduva, Arujá, Carapicuíba, Piracicaba e Bauru, no estado de São Paulo. A operação também alcançou municípios do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina.
De acordo com o Ministério Público, o grupo investigado teria criado uma estrutura administrativa paralela para controlar recursos e realizar pagamentos indevidos.
As suspeitas incluíam a contratação de empresas ligadas aos próprios integrantes da organização, que seriam utilizadas para emitir notas fiscais fictícias ou superfaturadas.
O Ministério Público também apontou reflexos na prestação dos serviços de saúde administrados pela entidade, incluindo relatos de mortes em unidades gerenciadas pelo grupo e elevado número de ações trabalhistas.
Diante da situação, a Justiça determinou a intervenção na organização social. Inicialmente, também proibiu a rescisão dos contratos de gestão pelo prazo de 30 dias, com o objetivo de evitar a interrupção dos atendimentos e prejuízos aos trabalhadores.
Luciano foi posteriormente liberado e afastado da direção da entidade, conforme informações divulgadas à época.
A investigação de 2025 é independente da ocorrência policial que terminou com a morte do médico neste domingo.
Documentos confirmam ligação com Pronto-Socorro de Viradouro
A atuação de Luciano Lopes Pastor na organização social responsável pelo Pronto-Socorro de Viradouro está registrada em documentos oficiais da administração municipal.

O Hospital Mahatma Gandhi foi contratado por meio do Chamamento Público nº 001/2022, que deu origem ao Contrato de Gestão nº 086/2022.
O objeto da contratação era o gerenciamento, a operacionalização e a execução das ações e dos serviços de saúde do Pronto Atendimento Municipal.
No quinto termo de aditamento, firmado em 24 de maio de 2024 e publicado no Diário Oficial de Viradouro em 4 de junho daquele ano, Luciano aparece como representante legal do Hospital Mahatma Gandhi.
O documento foi firmado com a Secretaria Municipal de Saúde e tratou da prorrogação do contrato de gestão.
O nome do médico também consta como diretor-presidente da entidade em demonstrativos financeiros de 2025 relacionados ao Pronto-Socorro Municipal Giovani Cusinato.
A presença de Luciano nos documentos comprova sua atuação na representação da organização social perante o município.
Embora o MPSP tenha incluído Viradouro entre os locais alcançados pela Operação Duas Caras, o comunicado de agosto de 2025 não identifica quais contratos municipais foram especificamente investigados nem informa eventual valor de prejuízo aos cofres públicos de Viradouro.
Dessa forma, os documentos disponíveis não permitem afirmar que tenham sido comprovadas irregularidades no Contrato de Gestão nº 086/2022.
Investigação também teve desdobramento em Bebedouro
No mesmo dia da Operação Duas Caras, a Polícia Federal realizou uma ação relacionada ao grupo investigado para apurar suspeitas de desvio de recursos públicos da saúde no município de Bebedouro.
Segundo o MPSP, as ações foram realizadas de forma coordenada, envolvendo diferentes instituições responsáveis pela investigação de possíveis irregularidades na gestão dos recursos públicos.
As apurações sobre o funcionamento da organização social e a responsabilidade dos investigados são distintas da investigação sobre a morte do médico em Catanduva.
