Nova gestora tem contrato de R$ 6,49 milhões por um ano. Mudança ocorre após questionamentos sobre atendimentos; resposta da antiga administração revela limitações no acompanhamento de indicadores.
O Pronto-Socorro Municipal Giovani Cusinato, em Viradouro, passou a ser administrado pela Associação Missão Integral Semear de Gestão em Saúde, a AMIS, após o período sob responsabilidade do Hospital Mahatma Gandhi. O novo contrato prevê R$ 6,49 milhões por 12 meses, com vigência até 12 de maio de 2027.
A antiga gestora também foi alvo da Operação Duas Caras, deflagrada em 7 de agosto de 2025 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. A investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e desvios de recursos públicos na gestão de serviços de saúde. A operação resultou em prisões temporárias de integrantes da diretoria e intervenção judicial na entidade.
Segundo o Ministério Público de Santa Catarina, que participou da ação, as transações sob suspeita ultrapassavam R$ 1,6 bilhão. Esse valor corresponde à movimentação investigada e não deve ser apresentado como prejuízo comprovado.
Em Viradouro, a intervenção aparece na própria documentação municipal. Ao prorrogar o contrato em novembro de 2025, a Prefeitura informou que a administração judicial havia terminado em 31 de outubro e que uma nova diretoria do Mahatma Gandhi assumira em 1º de novembro. A justificativa para a prorrogação foi garantir a continuidade do atendimento enquanto o chamamento para escolher outra gestora passava por ajustes.

Nova gestora receberá R$ 541,6 mil por mês
A AMIS foi a única participante da sessão de seleção realizada em 6 de maio. A Prefeitura homologou o resultado no dia 12, pelo valor mensal de R$ 541.598,88.
O montante corresponde ao valor contratado. Não representa uma comprovação dos pagamentos realizados nem da execução integral dos serviços.
Antes da contratação, o vínculo com o Mahatma Gandhi foi mantido por prorrogações. Em novembro de 2025, a Prefeitura justificou mais três meses de contrato afirmando que a seleção de uma nova organização estava suspensa para ajustes no edital e não seria concluída a tempo de assegurar a continuidade do atendimento.

Idosa teve fratura diagnosticada após atendimento
Um dos casos que motivaram questionamentos ocorreu em 25 de dezembro de 2025. Uma idosa procurou o Pronto-Socorro após sofrer um trauma no braço.
Segundo os documentos apresentados pela família na apuração, ela recebeu atendimento e passou por exame de imagem. Dias depois, em avaliação médica fora da unidade, foi diagnosticada uma fratura.
A família pediu esclarecimentos sobre o atendimento. A data foi confirmada em resposta formal do Mahatma Gandhi à Secretaria de Saúde, enviada em 26 de janeiro de 2026.
O diagnóstico posterior não permite, sozinho, concluir que houve negligência. Para isso, é necessário avaliar os registros clínicos, os exames e as condutas adotadas. Os documentos lidos nesta atualização não apresentam uma conclusão técnica sobre o episódio.

Mahatma informou que não havia ortopedista contratado
Na resposta, o hospital afirmou que o Pronto-Socorro não tinha contratação de médico ortopedista. Segundo a entidade, pacientes que precisassem de atendimento especializado poderiam ser encaminhados pela central estadual de regulação, a CROSS, conforme a avaliação de urgência e emergência.
O Mahatma também identificou os responsáveis pelo atendimento e pela supervisão médica e informou que a unidade seguia protocolos de classificação de risco, atendimento ao trauma e solicitação de exames.
Essas informações explicam como a antiga gestora descrevia o funcionamento do serviço, mas não esclarecem, por si só, se a conduta adotada no caso da idosa foi adequada.
Resposta revela limites no acompanhamento do serviço
O mesmo documento informa que o sistema hospitalar não tinha ferramenta para calcular o tempo médio de realização e liberação de exames de imagem, a taxa de retorno após a alta e a taxa de alta após trauma.
A entidade afirmou que priorizava os exames conforme a gravidade dos pacientes e orientava o retorno em caso de persistência ou piora dos sintomas. Informou ainda que havia metas para tempo de atendimento, mas não metas específicas para exames, encaminhamentos e alta.
A ausência dessas ferramentas no sistema não comprova que nenhum acompanhamento fosse feito por outros meios. A resposta, porém, deixa uma pergunta para a fiscalização municipal: como esses aspectos eram medidos e avaliados?
O hospital também declarou ter encaminhado relatórios e indicadores em anexos. Na data da resposta, o relatório anual de 2025 ainda estava em elaboração.

Ambulância foi alvo de apuração
Em abril, outro atendimento levou a Prefeitura a anunciar uma investigação. O caso envolveu uma mulher e seu filho vítimas de queimaduras.
Em nota publicada em 26 de abril de 2026, o Município informou que os pacientes foram transferidos para Bebedouro enquanto buscava uma vaga no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.
Após questionamentos sobre o transporte, a administração determinou a apuração das condições da ambulância, da escolha do veículo e dos procedimentos utilizados. Segundo a Prefeitura, havia outra ambulância mais nova disponível naquele momento.
A nota informou que o Mahatma Gandhi deveria registrar boletim de ocorrência e adotar providências para esclarecer eventuais falhas e responsabilidades. O comunicado não apresenta o resultado dessa apuração.
Prefeitura criou comissão para acompanhar a AMIS
Com a nova gestão, a Prefeitura designou uma comissão para avaliar e monitorar o contrato da AMIS. O ato é datado de 18 de maio de 2026.
Os resultados desse acompanhamento serão essenciais para avaliar o serviço. Entre os pontos estão a presença de profissionais, o tempo de espera, a disponibilidade de exames, as transferências e as reclamações dos usuários.
A comparação com a gestão anterior precisa considerar períodos equivalentes e o número de pacientes atendidos. Sem esses dados, não há base para afirmar que a troca trouxe melhora.

A Prefeitura continua responsável por fiscalizar o atendimento e prestar contas à população. A troca da organização que administra o Pronto-Socorro não encerra essa obrigação nem resolve, automaticamente, os questionamentos anteriores.
As respostas do Mahatma Gandhi devem ser consideradas. As limitações apontadas pela própria entidade também precisam ser esclarecidas pelo Município. Da mesma forma, uma apuração anunciada precisa ter seu desfecho informado, respeitando a privacidade dos pacientes.
Para quem procura atendimento, o resultado aparece na assistência recebida: profissionais disponíveis, exames realizados e encaminhamentos feitos quando necessários. É sobre essa entrega que deve recair a cobrança pública.
